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Viver andarilhos em Roda D’agua


A data da caminhada entre Roda Dágua e Pesque Pague do Nenê coincidiu com a tradicional 90 milhas Garoto.

A comparação entre os dois eventos esportivos é inevitável:

A corrida, disputada nas ruas de Vitória e Vila Velha é um evento grandioso que conta com a presença de atletas consagrados no cenário nacional e mundial, que tem por único objetivo percorrer os 96 km da prova no menor espaço de tempo possível.

Devido a pressa, não conseguem perceber a beleza do cenário escolhido para a prova, uma das maravilhas do litoral brasileiro, que são as nossas praias..


As caminhadas dos Andarilhos são o contraponto a esta agitação. Um grupo pequeno que caminha devagar e com calma, o que os permite, aguçar os sentidos, e apreciar cada detalhe do caminho, ao sentir o vento, o barulho das águas, ouvir não só a eterna sinfonia dos pássaros e insetos, mas o amigo que caminha ao lado para uma conversa ou mesmo um conselho. Enfim, acabam se tornando parte integrante do caminho, numa sintonia perfeita.


Deixando de lado as “divagações filosóficas”, o domingo amanheceu frio, com ventos fortes e nuvens carregadas.


Estas condições são um convite perfeito a uma permanência maior na cama, mas 55 andarilhos resolveram recusá-lo e acomodaram- se nas quatro vans que os levariam a Roda Dágua, pequena localidade na zona rural de Cariacica e Viana.


Os andarilhos , com suas mochilas, cajados e vestimentas exóticas, falando e sorrindo muito, despertaram a atenção das pessoas do lugar desde o primeiro momento após o desembarque.

Muito apetite no café quentinho e no pão recém saído do forno, temperado com o carinho e paciência pelos atendentes da Padaria Bruna, nosso ponto de partida.

A movimentação das inscrições, distribuição de camisas, preleção e o aquecimento, tão importante num dia como aquele, literalmente parou o trânsito pois aconteceu exatamente no meio da rua.


A cena da partida,é um momento mágico, pois ver aquela onda de camisetas verdes de sorrisos e disposição compensa todo trabalho que temos antes, durante e depois das caminhadas.

Dos diversos itens que o andarilho carrega em sua mochila, a “disposição” é fundamental neste caminho, pois logo na saída temos uma subida de cinco quilômetros, nos quais sobre cerca de 600 metros.

O grau de dificuldade foi drasticamente amenizado pelas condições climáticas, com sombra e vento frio.


A subida foi percorrida com blocos de andarilhos que não se distanciaram muito uns dos outros. É uma estradinha rural urbanizada, desmatada e com várias residências e postes de iluminação.


Antes do final da subida o primeiro apoio, com água e frutas e logo adiante a recompensa pelo esforço : A visão da cidade de Viana em primeiro plano e Vila velha, ma linha do horizonte. Como as nuvens estavam altas a visão não foi prejudicada.


E logo adiante mais um local apropriado para contemplar o horizonte: um mirante natural da curva do ponto mais alto do caminho.


Após o mirante o caminho se transforma numa descida leve e sinuosa, onde o expectador mais atento teve a oportunidade de perceber impressionantes contrastes vivenciados a cada curva , principalmente pela alternância do “profano” e do “sagrado”, mais precisamente pelas igrejas de diversas denominações e dos botecos, numa miríade de crenças e de aromas etílicos e de frituras.


Pelo caminho, casas mais modernas intercalam-se com construções antigas de madeira. As roupas nos varais a espera de um sol que certamente não seria visto num dia como aquele formam um fundo colorido numa paisagem onde a verde predomina

A cada curva do caminho , uma surpresa. Novas paisagens, desafios e personagens – lavradores molhando a terra num dia chuvoso, donos de bares , bêbados ou os rebanhos de gado, todos eles indiferentes ao burburinho dos andarilhos.


A jóia da coroa deste fim de semana apareceu no terço final da caminhada quando uma densa e fria neblina veio ao encontro dos andarilhos justamente a beira de um lago, compondo um cenário de rara beleza.


Neste ponto foi colocado o segundo e último apoio. A parada foi benéfica não só para a recomposição das forças mas para apreciar por alguns instantes a bruma que pairava sobre o lago, a cerca e a casa ao fundo. Só quem estava lá é que pode atestar o que digo, apesar das belas fotos tiradas neste ponto. Vale conferir no site.


Por maior que seja a nossa integração com a natureza, ela cisma em nos surpreender.

A medida que os andarilhos se afastavam do apoio, a neblina ia na direção contrária até desaparecer por completo, deixando o caminho livre para uma chegada das mais tranqüilas no Pesque e Pague do Nenê nosso destino final.


O local é simples e rústico, mas a boa comida, a cerveja gelada e a grande área coberta proporcionam ao andarilho aqueles momentos de puro prazer que uma caminhada entre pessoas amigas e com tanta paisagem bonita proporciona.


E quando o último andarilho atravessou o portão, a chuva que ameaçava cair durante todo percurso, apareceu com pouca intensidade, mas constante.


Acredito que o sisudo São Pedro desta vez prestou uma homenagem a todos que optaram por caminhar num dia frio em detrimento da cama quentinha ou da glória efêmera de participar de uma corrida de rua.


Para encerrar, gostaria de agradecer a todos que não mediram esforços para viabilizar uma caminhada curta, mas com tantos detalhes, resgatando a nossa fórmula original de diversão, exercício físico, e convivência fraterna.


Aos que se juntaram ao grupo neste evento as nossas boas vindas, o agradecimento pela amável companhia e o convite para se integrarem de vez nesta família chamada “Andarilhos”.


Espero encontrá-los novamente na caminhada ao Frade & Freira no dia 29 de Agosto.


Um grande abraço a todos.


Antônio Falcão de Almeida.