Galeria


Viver Arraiarilho


A nossa visita a Paraju neste ano foi mais que um evento especial.


O ponto alto de nossas andanças pelo interior do estado começa, exatamente na localidade homônima de Ponto Alto, uma feliz coincidência pois é um local que me traz sempre boas recordações.


Realmente é nosso ponto alto pelo grande desafio de organizar uma caminhada de dois dias, com mais de 50 pessoas, que mesmo tendo em comum o amor pelos caminho são tão diferentes entre si.

E é exatamente o amor pelo que se faz é que nos move e nos empurra nas infindáveis subidas pelos caminhos.


E para nós o caminho começou há mais de dois meses, na elaboração do orçamento, na forma de fazer as inscrições, contratação da dupla de cantadores e principalmente na logística, cuidando da alimentação e da hospedagem de tanta gente.

Isto sem falar que apesar de ser um caminho conhecido temos que percorrê-lo em sua totalidade, pois existem trechos onde quase não temos movimento de veículos.


Bem, após todos estes preparativos, ainda assim fomos na véspera para colocar em prática tudo que planejamos com o maior cuidado. As compras foram feitas, armazenadas o caminho foi sinalizado os aposentos identificados e prontos do ponto de vista de arrumação.


Feito isso, no sábado fomos esperar os andarilhos que pontualmente desceram do transporte com cara de sono, mas animados com a perspectiva de passar um fim de semana de caminhada e muita festa.


As boas vindas foram dadas na forma de um delicioso e farto café da manhã na Pizzaria Ponto Alto , onde todos puderam conversar de forma descontraída, promovendo com isso a integração dos novatos, que apareceram em grande número.


A nossa preleção foi bem descontraída e o aquecimento que feito num ambiente fechado foi acompanhado por todos.


Após a nossa tradicional pose para as fotos, de todo grupo e dos novatos, lá se foi o grupo para cumprir os 16,5 km que nos separam do sítio Goiabeiras, chamando a atenção dos habitantes da pacata vila.


Partimos para o primeiro e mais difícil trecho do caminho, de cerca de 6 quilômetros predominantemente de subida, muito forte em alguns pontos.

Também é um trecho bastante desmatado, e parcialmente reflorestado com eucaliptos, mas a visão dos vales muito verdes, o céu azul e a temperatura agradável nos dão uma sensação de que tudo não passa de um caminho plano, ainda mais pelo apoio eficiente e atento a qualquer problema.


O final da subida é marcado também por uma súbita mudança de direção e o caminho se torna mais belo e passa a ser em declive por estradinhas bem estreitas , sem nenhum movimento de veículos, com muitos trechos de matas fechadas, além de várias nascentes.


Esta é a real face do caminho, palco ideal para exibição dos talentos de nossos intrépidos “fotograrilhos” , que usaram e abusaram de sua capacidade de flagrar os mais belos ângulos, que podem ser conferidos nas galerias do site..


A longa descida termina em mais um cartão postal que é a ponte sobre o Rio Jucu, célebre por suas águas limpas e revoltas. Neste ponto, o apoio se despediu deixando os andarilhos cumprir um ritual que já esta virando tradição: A parada no Bar do Osmar.


Neste “apoio” sempre esperamos o limpa trilhas para que os andarilhos cheguem em bloco no sítio.


Enquanto esperávamos a chegada de todos, celebramos o lançamento do “Cartão Bolsa Linguiça”, onde os portadores do documento poderão tomar uma gelada e consumir uma porção da deliciosa linguiça da casa por 1 Real, só que subsidiada por nós mesmos. É a forma de protesto de nosso grupo contra tanto cartão assistencialista que existe por aí.


Do boteco ao sítio são apenas dois quilômetros, percorridos com facilidade por um caminho quase plano.


Todo fim de caminhada sentimos uma estranha euforia, pois mescla alívio, sensação de dever cumprido, descanso e perspectiva de bons momentos junto aos amigos.


Estas emoções tem um sabor especial no Goiabeiras, pois o que se vê na chegada são os lagos em primeiro plano, os chalés no meio, a montanha ao fundo e o céu claro um cenário perfeito que suscita paz..


O almoço servido logo em seguida foi simples, mas bastante farto e com várias opções no cardápio, temperado pela simpatia da família Christi lá de Ponto Alto.

Depois de uma bela caminhada, de um bom almoço e etc, nada mais a fazer a não ser acomodar-se nos aposentos previamente definidos e preparar para a grande noite de festa.


A armação da decoração, bem que poderia ter sido feita por nós que chegamos na véspera, mas a opção pelo mutirão estimula a cooperação . A esta altura a dupla de cantadores, Juvêncio & Doca animava os "decorarilhos" com modas de viola. São nestes momentos é que sentimos que tudo que fazemos vale a pena, sentir alegria por ver as pessoas felizes e trabalhando pelo coletivo não tem preço.


Enquanto alguns cuidavam da decoração, outro mutirão acontecia na cozinha , onde as tarefas de arrumação e preparo das iguarias para a festa, milho cozido, caldo verde e péla égua.


A aparição da Lua cheia numa noite não muito fria foi a senha para que fosse dada a largada para festa.


O figurino das meninas e meninos do grupo foi marcado pela criatividade, irreverência e bom gosto, como não sou estilista, peço que façam o julgamento pelas galerias de fotos. O destaque maior foi uma dupla vestida de vaca e oncinha , impagáveis e indescritíveis.


E a fogueira... Vou parar a festa por aqui e fazer algumas considerações sobre o que ela representa.

Na antiga Galiléia, as fogueiras eram acesas para fazer anúncios ou encaminhar mensagens, confirmando situações previamente combinadas. A tradição das fogueiras de São João deve-se ao nascimento de João Batista, filho dos anciões Zacarias e Isabel. Ao ser visitada pela prima Maria – mãe de Jesus – durante a sua gravidez, Isabel informou-lhe que no instante do nascimento da criança o velho Zacarias acenderia uma fogueira e quando o clarão fosse visto, ao alto da colina, seria a confirmação que a jovem Maria deveria seguir para ajudar Santa Isabel nos primeiros instantes de São João Batista.

Atualmente estes aspectos de religiosidade, não ditam as regras das tradições deste momento. Porém, alguém já imaginou uma festa junina sem fogueira? é a mesma coisa banho sem sabonete...


Para relembrar este momento, a nossa fogueira foi acesa com toda reverência, sendo circundada por uma grande roda de andarilhos ao som de músicas relativas ao tema. Um belo momento sem dúvida.


Logo em seguida, a quadrilha, marcada por nossa amiga Divina com Doca e Juvêncio dando o tom, encheu todo ambiente com divertidas coreografias movidas pela criatividade e capacidade de improvisação que só aqueles que andam com espírito aberto sabem fazer. Tudo isto com a fogueira ao fundo e o luar clareando a noite fria.


De repente a lua sumiu e uma fina garoa tomou conta do lugar, mas nem de longe espantou os dançarinos numa festa muito animada e que contou inclusive com a presença da simpática mãe do Juvêncio, que foi presenteada com um “chapeuzinho de vaca” de uma de nossas andarilhas. A Vovó ficou linda.


Após a festa todos se recolheram aos seus aposentos , sob uma chuva fina que durou toda noite.


Muitos acordaram cedo e o que chamou mais a atenção foi a nossa fogueira, cujas labaredas teimavam em sua tarefa de consumir toda a lenha, apesar da chuva.

Eu sinceramente tenho a convicção que era, em concordância com os tempos de João Batista, um anúncio de que pessoas alegres e comprometidas com o coletivo estavam ali para celebrar a paz e o entendimento entre todos.


A disposição dos Andarilhos é invejável..após caminhada, uma festa que foi até o inicio da madrugada todos acordaram bem cedo, arrumaram a bagunça da noite anterior e as oito horas já estavam aguardando o café da manhã que seria servido pela família Christi. Isso debaixo da chuva fina e fria que não parava.


Após o café saímos para mais uma caminhada, esta bem menor em trajeto mas com certeza muito bonita, pois o caminho contorna do monte em frente ao sítio onde predominam a mata e mais cachoeiras. Apesar de não gostar de caminhar na chuva , é maravilhoso ver todos em fila indiana, com suas capas de chuva e até capas improvisadas com o plástico dos colchões que havíamos comprado na véspera.

Não fizemos foto do grupo na partida, mas saímos atravessando a represa e iniciamos o trecho de subida.


A subida, mesmo com a chuva permitiu uma visão dos vales e das propriedades bem cuidadas da região, mas confesso que estava sonhando em chegar logo na primeira cachoeira para um banho frio e mostrar a quem não conhecia esta bela queda d'agua.


Bem, o banho ficou para a próxima, mas , acho que esta cachoeira, no alto da montanha bateu o recorde de fotos, pois cada um buscava um ângulo melhor.


Logo a pós a sessão de fotos, a chuva, nossa companheira em todo trecho de subida saiu de cena, o céu clareou e um sol firme apareceu.


O trecho agora é de uma longa descida, e lá, podemos avistar a Vila de Goiabeiras lá em baixo, com a Igreja, o Rio Jucu e o labirinto de estradinhas viscinais.


Ao fim da descida, mais um presente aos andarilhos: a segunda cachoeira do dia , na propriedade do Sr Ricardo Simmer. É uma grande queda de mais de setenta metros de altura e que termina numa piscina natural antes de suas águas se juntaram ao Jucu. Aí não teve jeito, muitos andarilhos caíram nas águas frias.


Bem a última parte desta jornada seria o almoço, com churrasco preparado pelo Roberto.

Após o almoço, todos se transformaram em arrumarilhos e em dois tempos o único vestígio de passagem de tanta gente pelo local era o aroma agradável da alegria, da gratidão e da sinergia entre o anfitrião e seus convidados.


Para terminar, e para não correr o risco da omissão vou generalizar os agradecimento a todos os andarilhos pela amável companhia e oas que ajudaram na organização e que não mediram esforços para que tudo corresse as mil maravilhas.


Espero sinceramente que possa no futuro acender muitas fogueiras para anunciar tudo de bom que fazemos em nossas vidas.


Grande abraço a todos e até o dia 15 de Agosto em Roda Dágua.


Antônio Falcão de Almeida.